Archive for the ‘Pretexto’ Category
Mas é que as coisas passam…
Eu e o Vini conhecemos a Bia de Luna em um dos nossos primeiros encontros lá no Café e Cultura em Curitiba.
O relacionamento com ele acabou, e se tornou uma das amizades mais puramente fraternais que eu tenho. A Bia de Luna morreu, o café fechou e eu não moro mais em Curitba.
Todos esses finais se explicam perfeitamente com: nada resiste ao tempo e ao acaso. E podem ser resumidos em: as coisas passam.
E é engraçado eu lembrar tanto da Bia nesses últimos dias. Parece-me que a figura dela é uma concisão de Curitiba que paira no meu inconsciente. Taciturna, fechada, louca, birlhante, fálica, refinada, finada.
“…porque todos nos encontraremos nas incertezas do subsolo…”
E a poesia da moça dos óculos pintados me faz lembrar das ruas molhadas iluminadas com luz quente no centro da cidade. Ruas essas que elevam a dramaticidade de qualquer encontro casual. Os bares subterrâneos, as casas sempre fechadas com pessoas fechadas dentro, uma feira alegre e colorida aos domingos, a cidade fantasma.
Os termômetros registram 35º graus em Brasília e mesmo assim as vezes eu sinto falta de quatro cobertas pesadas, da sensação térmica de -14º e o vento com aquela voz mais grossa.
Mas é que as coisas passam. E quem não aprende isso é que fica pra trás.
Cuidado com o que você deseja.
Os nossos desejos ocultos conversam com os desejos ocultos dos outros.
Ai eles combinam como tudo vai ser, quando e onde.
Eu não sei com vocês, mas pelo menos em mim os desejos ocultos mandam.
Eu até consigo procastinar um pouco suas ordens, mas eles não estão nem aí.
Roubam minha paz e contentamento com a situação atual e me levam a pensar em algo que me fará mais feliz.
Eu, que nem sequer acredito em felicidade.
Os desejos ocultos são sonhos anões.
Mais rápidos e mais eficazes.
Eles têm compromisso com a realidade.
Os sonhos não.
Os sonhos são lerdos e dificilmente se comunicam com os sonhos dos outros.
Os desejos fazem tudo por você.
Os sonhos não.
Esse é o perigo.
Essa é a melhor parte.
Dois lados da moeda
OBS: O artigo que segue não expressa o meu ponto de vista, mas acho interessante observar com cuidado os dois lados da questão. Ou não é isso que nós os “estudantes de jornalismo” aprendemos na faculdade?
Agora jornalismo é para quem quiser, graças a Deus
Por Marcos Zibordi
Ok, sou mais um a escrever sobre o fim da exigência do diploma para jornalistas. Relutei em fazer este artigo, mas a indignação dos profissionais me toca. Estão putíssimos, é fato. Meus alunos, preocupados. Eu adorei. Agora, jornalismo é para quem quer fazer jornalismo, não para quem teve a chance econômica de adquirir o diploma que permite exercer a profissão.
Sem dúvida, as razões de Gilmar Mendes e seus pares são equivocadas – eles pensam que o jornalismo não pode prejudicar a sociedade, opinião realmente inacreditável. Contudo, assusto igualmente com os argumentos dos jornalistas, especialmente um: o diploma garante, no mínimo subsidia, a qualidade do exercício profissional. Será preciso lembrar quantos casos para demonstrar o contrário? Escola Base? A edição do debate Lula-Collor? A sanha de abutres na morte de Isabella Nardoni? Ou o assassinato de “garota Eloá”, promovido por diplomados?
Aliás, menos: é só ler jornais, revistas; acompanhar rádio e televisão; ler os famigerados releases das assessorias de imprensa. Em geral, o jornalismo praticado no Brasil é tecnicamente medíocre, a repetição de si mesmo, quem viu um viu todos. Não falo de ética, compromisso social, não sonho tanto. Penso na proclamação do textozinho padrão, o verbo “disse” após a citação, a malandragem da isenção, da imparcialidade, a incapacidade narrativa, a capacidade de aliciar sem ser sexy. O jornalismo brasileiro ainda não decidiu se pronuncia “risco de vida” ou “risco de morte” e chama o PCC de “quadrilha que age dentro e fora dos presídios”, evidenciando-os com a expressão pomposa que pretendia ocultá-los.
Os jornalistas também esperneiam pela possibilidade de perderem conquistas históricas. Ora, por séculos existimos sem diploma, coisa que imperou no Brasil por somente 40 anos. Não estou negando os nacos arrancados a duras penas das montanhas de dinheiro desse bando de Tio Patinhas, empresários da comunicação. Porém grandes conquistas dos trabalhadores em jornalismo são anteriores à ditadura e à exigência do diploma, tipo a instituição do primeiro piso salarial e da jornada de cinco horas, resultado da greve de 1961, organizada pelo sindicato dos jornalistas de São Paulo – mas quando foi mesmo a última greve dos jornalistas, a mobilização que deu notícia?
Fico me perguntando sobre a nossa situação. Pesquisas demonstram que a profissão figura entre as mais insalubres e, após quarenta anos da “categoria organizada” no Brasil, somos explorados ao extremo, recebemos miséria, trabalhamos pra cacete.
Sabe qual o salário de um jornalista na capital paulista? O piso é de R$ 1.738,25 para quem trabalha cinco horas (duvido que exista um) em jornal ou revista. No interior, rádios e televisões pagam R$ 861,85. Imagino que vários cozinheiros ganhem melhor.
Sobre os presumíveis direitos dos jornalistas, risíveis. Inúmeras redações funcionam com legiões de diplomados “contratados” temporariamente. A Editora Abril, a maior do ramo, ajusta freelancers por exatos dois meses e 29 dias, para não caracterizar vínculo empregatício aos três meses. Surgiu “no meio jornalístico” a expressão de todo escrota: “frila-fixo”. Designa o jornalista temporário que trabalha direto e reto na mesma empresa, às vezes anos, sem nenhum direito.
Para os que defendem seus canudos, duas perguntas: por que vocês aceitaram e aceitam ter aulas, talvez a maioria delas, com professores que não são nem nunca foram jornalistas, inclusive em disciplinas específicas? Não seria mais, digamos assim, lógico, receber formação de gente da área, já que, como diz a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), o jornalismo é “uma atividade profissional especializada, que exige sólidos conhecimentos teóricos e técnicos, além de formação humana e ética”?
Há ainda o argumento da “contratação de qualquer um” pelas empresas de comunicação. Percorri os telejornais e desde a decisão do Supremo Tribunal Federal não assisti a cena clássica, filmada do helicóptero, a fila de candidatos a emprego dobrando a esquina, hordas de bárbaros aspirantes ao jornalismo prestes a invadir as redações, suas pastinhas nervosas no sovaco, o currículo dentro.
Não haverá “invasão”, palavra que amestrados diplomados usam sempre para denegrir a legítima e última solução da gente mais explorada deste país. Amestrados: são conhecidos “no meio jornalístico” pela acrobática alcunha de “focas”. Com o fim da reserva de mercado, lo siento, os penetras com vocação e preparo, sim, concorrerão com nosotros.
Dando aulas em cursinhos populares, inclusive dentro da Universidade de São Paulo (USP), cansei de ouvir lamentações de jovens pobres que sonhavam um dia ser jornalistas, mas não podiam, não poderiam nunca concorrer à vaga na universidade pública, nem financiar a particular. Treta, né? Quanto vale um sonho impedido?
Por fim, relaxem, os cursos de jornalismo sobreviverão, e nem sei se precisarão justificar sua existência. Em geral eles prestam enorme serviço aos patrões formatando o futuro profissional, aulinhas de lide durante meses, exercícios práticos que achatam a criatividade, a sagacidade, o tesão dos alunos com asneiras do tipo “não use adjetivo”, “seja objetivo”, “seja imparcial”. Não duvido nada que permaneçam as picaretagens típicas de sala de aula, aqueles mestres que vivem de um difuso, duvidoso e remoto passado profissional, ou os chatos capazes de criar esta impossibilidade ambiental: o clima de marasmo tenso.
Continuidades à parte, torço agora pelo próximo passo evolutivo: a extinção da obrigatoriedade do diploma de Direito. É praticamente impossível, eu sei, inclusive a Ordem dos Advogados do Brasil apóia a exigência para jornalismo, imagina se mexerão no deles. Mas não custa nada sonhar com o dia em que velhinhos não precisarão mais recorrer a um advogado para pedir revisão de aposentadoria, por exemplo.
Marcos Zibordi é reporter da revista Caros Amigos.
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Bienal Brasileira de Design em Brasília
Único contratempo: Limitação com o uso da máquina fotográfica pela organização do evento. Então, se vc não quer fotografias no local, proiba logo de uma vez e não me faça tentar operar uma máquina compacta sem flash em condições de iluminação bem duvidosas. No mais, tudo ootemo, pois o Museu Nacional é oootemo.
Mais infos em http://www.bienalbrasileiradedesign.org.br
Aos pés da Bossa
Esse é o melhor tipo de notícia para começar um dia.
Há momentos em que ser brazuca é pooooodre de chique.
Aos pés da Bossa – Noite de abertura da mostra do ‘Jornal do Brasil’ sobre o gênero reúne 3 mil pessoas na ONU e espera-se 200 mil até dia 19
Jornal do Brasil – 11/9/2008 – Por Osmar Freitas Jr
Nova York – A bossa nova está servindo de comissão de frente na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York. A mostra 50 years of bossa nova, que reúne fotos e textos históricos sobre o gênero musical brasileiro mais conhecido internacionalmente, abriu anteontem à noite e segue até 19 de setembro, no saguão do prédio da Comissaria na Primeira Avenida de Manhattan. Num espaço de 3 mil metros quadrados, a exposição conta, como um samba-exaltação, a trajetória da bossa. As alegorias, neste caso, são painéis com material escolhido pelo Centro de Pesquisas e Documentação (CPDoc) do Jornal do Brasil, que promove o evento com a Casa Brasil, com oferecimento da Bradesco Seguros e Previdência e apoio da Sociedade de Língua Portuguesa da ONU (SLP). Na noite de abertura, aproximadamente 3 mil pessoas conheceram a mostra. – O lugar é o mais apropriado para esta mostra. Se a bossa nova fosse tocada com mais freqüência aqui na ONU, talvez tivéssemos mais paz no mundo – disse o embaixador Piragibe dos Santos Tarragó, representante permanente do Brasil nas Nações Unidas. Para um movimento que nasceu em ambientes intimistas, a bossa nova demonstra que, como a ONU, abraçou o mundo nestes 50 anos. O lugar ficou lotado. Espera-se que 20 mil pessoas passem diariamente pela mostra. – Esta é uma generosa aula sobre um dos gêneros musicais mais aclamados do mundo – avaliou Jay Morgan, veterano crítico musical americano da revista nova-iorquina Jazz Beat.
Outras formas
Isso é sobre outras formas.
Esse dias o Mano comentou que tristemente percebeu que eu não escrevia mais. Claro, estou mais triste que ele por isso. No entanto minha tristeza vê a falência ( ? ), quando encontro outras formas de expressão. Se não posso mais escrever com palavras, o faço com o olhar e luzes.
Notícia fria
Hoje a caminho do trabalho passaram ao meu lado dois moradores de rua. Eu estava na Visconde Nacar, esquina com a Comendador Araujo. Eles passaram e me causaram medo. Sempre há um temor no cidadão comum diante dessas figuras que, como diz meu amigo Vinícius Sgarbe, fazem parte do mobiliário urbano. Como eles ousam enfeiar nossa maravilhosa cidade, “pensa” nosso inconsciente coletivo.
A verdade é que todos nós queremos queimar um morador de rua. Eliminá-los, por qualquer que seja o motivo, é melhor do que enfrentar o problema mais delicado de nossa cidade: Esconder problemas.
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Morador de rua é atacado com ácido no Paraná
da Agência Folha, em Curitiba
Um morador de rua foi queimado com ácido enquanto dormia em Curitiba (PR). Desempregado, Alexsandro Duarte Matos, 31, foi internado em estado grave e ainda corre risco de morte. Ele foi atacado no bairro Jardim das Américas. Matos dormia na calçada, sob o toldo de um aviário, quando foi atingido pela substância, na madrugada de anteontem.
Ele sofreu queimaduras de terceiro grau nas mãos e no rosto. A Polícia Civil foi avisada quase 24 horas depois do crime pela direção do Hospital Evangélico, segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública.
A direção da instituição diz que teve dificuldades para saber o que tinha acontecido. O diretor-clínico, Samir Bark, afirma que Matos chegou sem documentos, com muita dor e dificuldades iniciais para lembrar o próprio nome.
O caso está sob investigação na Delegacia de Homicídios. Uma equipe de policiais, segundo a Secretaria de Segurança, foi designada para levantar informações sobre os responsáveis pelo ataque. O tipo de ácido ainda não foi identificado.
O lugar onde o homem foi atingido pelo ácido era usado para dormir há cerca de quatro anos. Ele sobrevivia de esmolas e vivia sozinho pelas ruas.
Bark diz que casos como esse são raros no Paraná. O Hospital Evangélico é a instituição especializada no atendimento a vítimas de queimaduras no Estado. De acordo com Bark, o morador de rua ainda corre risco de morte porque as queimaduras podem evoluir para um quadro infeccioso.
Concordo
“Críticos e cinéfilos precisam reaprender que filmes e seus autores podem existir independentemente de suas opiniões. Críticos e cinéfilos precisam parar de querer educar os cineastas com suas opiniões ou desconsiderações excludentes. [...] Críticos devem conduzir filmes e seus pensamentos com as fragilidades requeridas. Não devem entregar produtos aos consumidores finais já destruídos na embalagem. Devem deixar a própria vida sedimentar os fragmentos de filmes que dão base a nossos conceitos e sabedorias. Os filmes devem voltar a ser vistos como materiais de construção.”
Leon Cakoff, diretor da Mostra de Cinema de São Paulo.
Drummond de Andrade
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
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Ao som de: Gotan Project – Epoca
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Elemento vazado
Atrás daquelas simples formas geométricas, complicados formatos relacionais quebravam-se
Por entre aqueles buracos ele podia ver o corpo em formas adolescentes e a água do chuveiro enxugando algumas lágrimas. E num dia frio ele a observa novamente. Ela tira algumas peças de roupa e a roupa íntima. Conversa com o espelho e espreme espinhas. Estimula-se, forjando um prazer até então desconhecido. Isso causa rubor e rigidez. Já o que causa susto é a entrada de um homem. Ele vê naquele todas as suas características. Cabelo, roupas, estatura e se não está enganado, até o mesmo cheiro. De fato tratava-se de um outro dele no outro lado.
Ele a abraça da cintura para baixo com um orgulho malicioso estampado no rosto velho e feio. A moça tira um vidro de perfume do armário e começa a cheirá-lo dizendo que aquele aroma a faz lembrar o abandono. Ao enrolar-se na toalha, reclama uma proteção inexistente e diz como foi difícil viver só com aquele poedaço de pano nos invernos mais rigorosos. Ela apresenta o homem ao espelho e chora feliz, dizendo que as semelhanças (pela consangüinidade) são apenas físicas. Ao final dessas palavras, de súbito, eleva sua mão à cabeça dele. Com um empurrão o espreme contra o espelho e antes de esfaqueá-lo mostra todas as suas feridas. Nos seios, nas pernas e os nervos do rosto quase não funcionam. Ela diz não ter motivos para viver, mas prefere matá-lo. E o faz.
Atrás dos buracos ele ainda observa a saída da assassina e também sua própria agonia do outro lado. O sangue frio e ralo não chega ao ralo, antes, espalha-se, e é este mesmo que lavará a dor de cada partícula que está no ar. Ela sai com a certeza de que fez tudo.
Matou quem estava dentro e também quem estava fora.


























