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DoEu
De todas as pessoas do mundo a que eu mais adoro sou eu, já a que eu mais odeio sou eu. Eu sou a única que pode me controlar, mas quando me descontrolo só eu pra me consolar. E quando eu falo mal de alguém então? Fico péssima. Então eu venho e falo dos meus sistemas de convivência e até moral. Nada como eu pra me apartar de mim.
Quando minha vó morreu eu fui ao enterro, mas eu fiquei em casa. Há um ano não a via, mas no interro eu a vi. Quando minha sobrinha nasceu eu estava lá no hospital e no mesmo dia em Curitiba eu ia ao meu apartamento arrumar meu guarda-roupa. Meus sistemas não falham.
Atrás do Palácio do planalto eu vi uns casais, atrás do prédio eu fumava cigarrilhas doces e charutos, mas ao mesmo tempo eu ouvia Chopin no domingo a tarde.
Eu morri no dia em que nasci, já eu só vivo quando morro. Agora a vida chegará para mim, já eu quero mais uma vez viver.
Eu vivo morrendo, já eu estou nascendo.
Eu vi alguém ali!? Ah eu não vi…
Eles são reais

E eles então entram no picadeiro. Não para perfomances incríveis, com saltos bem ensaiados e posições para atear fogo. Eles são apenas a nossa imagem ampliada.
A maquiagem bem feita para que os rostos não sejam revelados como são e o corpo vem disfarçado com figurinos comédia. Cabelos chamativos, olhares compulsivos, crianças rindo, todos se divertindo. Eles são palhaços, mas são humanos. Nós somos humanos, mas somos palhaços. Olhamos o que o público quer para colocar o disfarçe sem que qualquer sentimento seja exposto. E rimos para que as crianças no futuro acreditem em nossa palhaçada.
Todo rio limpo tem um cobra
Todo senso comum te discórdia
Toda regra tem exceção
Em toda limpeza há pó
Toda raiva esconde dó
No universo há um buraco
No bom caráter tem egoísmo
Na bela mulher há TPM
Sempre há medo em quem nada teme
Há provincianismo na cidade grande
Há distância entre os namorados
Falta um elo na ciência
Há um furo na sua calça
Só algumas bobagens
É verdade o orgulho.
É verdade a inveja.
São reais os entulhos
que eu coloquei no caminho.
Mas é verdade a solidão.
É verdade a espera.
Não era real o castelo
que veio substituir a meia água.
Perdi o rei e o príncipe
querendo fugir pelo fosso.
Não sei do quê
Não sei pra onde.
Talvez a fulga lembrasse
fugacidade no lugar
que não provou ser forte no começo
desmoronando antes que eu chegasse
ao outro lado da ponte.
Ou talvez precisasse de coisas mais etéreas,
puras.
Ou talvez de só um pouquinho de éter.
