Archive for the ‘Poesia’ Category
Sobre aprender
Viver nessa terra é ter de fazer algo que ninguém ensinou.
É ter que cantar notas não desenhadas.
Compor imagens nunca vistas.
Ver sem os olhos, chorar sem lágrimas, cuspir sem escarro,
desfazer-se de algo sem escárnio.
Já descobrimos o que fazer com o problema do lixo doméstico
e com os resíduos químicos industriais.
Mas, e quanto ao lixo que fica em nossas cabeças?
Quem o juntará no final do dia?
Qual caminhão o levará?
E o pior é que não há reaproveitamento de coisa alguma.
Onde eu jogo a lembrança dos olhos que olhei tão intensamente
e que não queriam mais me olhar?
Nos metais? Nos orgânicos?
Plásticos?
Será que há coleta seletiva para as dores viscerais?
Um cão faminto vai mexer no lixo da rua
e encontra pedaços de um coração partido que hoje não sofre mais.
Leva-os para os filhotinhos famintos que, com vontade,
comem os sonhos mortos.
Pseudo hai kai
Algumas coisas são inevitáveis já outras também
De Vinícius Sgarbe e Gabrielle Seraine
Texto publicado em fev/04, mas creio que foi feito para o dia de hoje.
Cuidou a vida inteira da saúde. Privou-se das bebidas fermentadas, das cigarrilhas que até lhe agradavam o paladar, comia arroz integral e por fim decidiu-se pela dieta macrobiótica. E isso para sua saúde mental e também para o desespero dos membros da família, a quem afirmava convicto: –Não vou deixar qualquer porcaria acabar comigo – e isso vinha com acompanhamentos diversos. “Olha o colesterol! Cuidado com a barriga! Você deveria pensar mais na idéia da academia. Isso tem ácido lático…” e mais todas as paranóias que cobriam os cereais integrais, legumes e frutas frescas.
Seu José, ou Zé como era conhecido na vizinhança, potencializava a demência fazendo ginástica e correndo na maratona, evidentemente, da terceira idade. Chegou a ser destaque em colunas esportivas dos jornalecos de bairro por sua “força de vontade”. Nessa ocasião, inclusive, seu senso de saúde confundiu-se com o patriótico e os netos se constrangiam.–Aquele entrando na padaria com a bandeira do Brasil nas costas não é o seu avô?–Hmmm… Sabe como são os horrores da guerra…
Os idosos da rua reuniam-se todas as tardes de domigo para fumar cigarros baratos e fedidos, embriagarem-se com bebidas baratas e fedidas e depois do torneio de cacheta empanturrarem-se com uma macarronada cheia de baratas e fedida. Quando o Seu Zé passava na frente daquela “roda de escarnecedores” com seu short de correr e suas polainas coloridas todos provocavam: “–Vai um golinho aí, Zé?”, “–E uma gordurinha mal passada, vai bem?” Porém, tudo no limite de uma amizade de décadas, ou seja, nenhum.
Mas ele era bem respeitado pela juventude. Especialmente a maconheira. Honravam o Seu Zé e toleravam, com uma paciência singular, todas as suas maluquices. Afinal ele podia ser biruta mas acabava incentivando a todos com seu coração, que era o melhor já visto por todos. Com sentido duplo.
E houve uma fenômeno patológico em que se produziu zona de necrose conseqüente à hipóxia, neste caso por trombos. Seu Zé morreu de infarto. Fulminante. E nem deu tempo de ir para o hospital.
Tempo e acaso. Pode ir em frente. Zele o quanto quiser por algo, ou tente, com todas as suas forças destruí-lo. Esgote-se nas tentativas de controle e, inexoravelmente, amargure-se na sensação de irreversibilidade. Impotência, mediocridade e limitação espacial. Tempo e acaso.
Duas casas
Duas casas numa mesma rua
Contam histórias
Casas firmes com certeza
Sempre limpas e com comida na mesa
Ruas largas, casas amplas
No lugar de esquecidos
amores mal resolvidos
De quem um dias as habitou
Ali não moraram anjos
Ali ninguém fazia ninguém feliz
Ali se passaram anos
Todos preocupados com o próprio nariz
As casas eram tão belas
E por sua imponência não conheciam vielas
As ruas com seus ladrilhos
Espaço aberto para fugitivos maridos
As casas grandes com e com janelas
Não escondiam os corações partidos
Não escondiam os corações partidos
De quem habitava nelas
Talvez por algum segundo
Ninguém quisesse as belas casas para morar
Mas haveria muito conforto
Em haver bons corações para amar
Escrito ao som de Chopin
Escreva mais umas linhas da minha história,
Não deixe o vento levar as últimas folhas que enfeitam essa viela tão curta
Corre só mais cinco quadras comigo
No fim você verá que tudo teve bem mais valor
Bem mais do que ficar parado à sombra da mediocridade
Três casas são suficientes para se chegar aonde quero
Vire a direita pois é direito ficar comigo agora e sempre
Sempre fui eu seu caminho
Eu escreverei músicas no chão para alegrar sua vida se preciso,
Mesmo que para alegrar sua vida só se necessite de palavras no chão e eu não
Eu longe
Mas escreva minha história mais um pouco pra mim
Te dou tudo
Te dou lápis, pincéis
Tudo do mais caro e caro é você
Que vale mais páginas em branco à espera de um enredo
Que vale mais e mais vale esperar séculos pelo que vai chegar
Pois chegará como os navios que carregavam ouro e madeira nobre
Da terra mais nova, dos melhores exploradores.
E um grito sairá do meu ventre quando você chegar
Como quem tem tudo resolvido há milênios…
E só esperava alguém para escrever e consumar.
Uma sacada à beira do precipício
Todos as folhas voam em direções opostas
Não há árvores, não há vida
Há um buraco
Único sinal de algo que tenha nome
Mas que importância tem isso?
Há uma menina de olhos firmes
Pele ressecada pelo vento
Há muito ela está ali
Sentindo as folhas misturando-se ao seu cabelo
Em uma sacada à beira do precipício
Ela colocou flores, construiu sonhos
Que se escoam pelos espaços da sacada
Precipício abaixo
Talvez ela saia de lá
Talvez ela fique
Talvez ela vá.
A vista é lúgubre
Nada é fechado
Não há duas paredes que formem uma saída
Há somente uma sacada à beira do precipício
Ela come o vento
Que supre ar à sua esperança
E as vidas são levadas por ele
Tais como as folhas
E nada mais há senão a sacada, folhas que vem e vão
A menina e uma esperança.
E vão…
Vãos no tempo que passa, vendo a vista que embaça
Vãos no tempo, nós no tempo…nós sem jeito
Caem, soltam, pois são mal feitos.
Em vão.
Da janela
À vista de costas ainda há vista da cidade. De onde os suicídas se jogam a poesia brota para dar algum sentido a vida.
Ahh se esse papel voar!!! Eu não transmutarei em símbolos os sentimentos tão raros nesta janela(o papel está nela).
Ao som de música realista, estou sã e branda como nunca, e calma e fresca e como quase que sem aceitar, feliz. Vai passar eu sei, mas veio e isso é o que importa.
Não quero sair pela porta. Quero a janela. Nela estou feliz. Não quero cair nem sair.
Quero ficar assim…vendo a cidade que amo, mas que foi palco das minhas mais terríveis dores – e os espetáculos continuam, pelo menos até o presente momento em que estou aqui, na janela, sentindo o mundo como se não fosse lúdico.
O importante é o que foi embora pela janela sem eu ter que encará-la.
Ai de quem me envenenar… Ai de quem me roubar……
Ai de quem me envenenar…
Ai de quem me roubar…
Ai de quem me perguntar porque voltei…
Ai de quem souber o que eu não sei…
Ai de quem fizer o que eu não faço…
Eu odeio o traço que não é meu…
Façam fila pra me ver dançar..
Eu não sei, mas tenham paciência.
Paguem ingresso, invistam em mim…
Vocês verão arte viva e inocência..
Indignação e irreverência…
Ai de quem não souber apreciar minhas previsões sobre mim..
Não verão nada..
Pagarão pra não ver.
DoEu
De todas as pessoas do mundo a que eu mais adoro sou eu, já a que eu mais odeio sou eu. Eu sou a única que pode me controlar, mas quando me descontrolo só eu pra me consolar. E quando eu falo mal de alguém então? Fico péssima. Então eu venho e falo dos meus sistemas de convivência e até moral. Nada como eu pra me apartar de mim.
Quando minha vó morreu eu fui ao enterro, mas eu fiquei em casa. Há um ano não a via, mas no interro eu a vi. Quando minha sobrinha nasceu eu estava lá no hospital e no mesmo dia em Curitiba eu ia ao meu apartamento arrumar meu guarda-roupa. Meus sistemas não falham.
Atrás do Palácio do planalto eu vi uns casais, atrás do prédio eu fumava cigarrilhas doces e charutos, mas ao mesmo tempo eu ouvia Chopin no domingo a tarde.
Eu morri no dia em que nasci, já eu só vivo quando morro. Agora a vida chegará para mim, já eu quero mais uma vez viver.
Eu vivo morrendo, já eu estou nascendo.
Eu vi alguém ali!? Ah eu não vi…



