CARTA AO MUDO
Se Kafka pôde, eu também o faço.
” Não temo tuas palavras. Normalmente elas são o pressuposto para que tua boca não soe falsa e tua existência não seja vã. Mas ela é. Então tuas palavras são apenas o caos de códigos que te guiam à mentira e te fazem perder o contexto de tua existência. “
E a forma ralaxada com que você guia suas verdades, mais parece uma mãe desajeitada querendo levar os filhos pra dentro de casa, quando o que eles mais querem é correr pelas calçadas em busca de um norte. No quarto de seus sentimentos, você encaixota os fatos e os coloca na prateleira que te dá vontade. O que sobra, fica pra fora em uma garagem vazia. O que você não sabe é que as paredes são fracas e a casa está sob risco.
Você sai e corre para a cidade ostentando consciência e roupas limpas. Mal sabem as traças que seu mais delicioso alimento está no coração velho e empoeirado, usado e sujo e que as roupas são apenas um aperitivo antes do prato principal. E seus amantes acham que têm grande coisa.
A perversão correndo nas veias era o sentindo em todos os momentos em que ouvia as suas palavras. O erro proposital, o engano em doses excitantes, o corpo embalsamado em emoção. Tudo se completava até o ciclo ser rompido pela sua ignomínia, e a verdade do pecado se foi com o seu erro, que já não se pode chamar “pecado”, pois as desventuras do que por você foi maldito não carregam em si nada de bom.
O que sobrou foram os textos. Palavras dos retranqueiros da vida, que já as têm de sobra na boca para advogar causas francas, mas nem sempre com sentido – não se fazem maus, pois as causas não vêm com explicação – mas nem tudo se faz com palavras. Palavras as vezes, ou quase sempre, são só palavras.
