Archive for Julho 2006
CARTA AO MUDO
Se Kafka pôde, eu também o faço.
” Não temo tuas palavras. Normalmente elas são o pressuposto para que tua boca não soe falsa e tua existência não seja vã. Mas ela é. Então tuas palavras são apenas o caos de códigos que te guiam à mentira e te fazem perder o contexto de tua existência. “
E a forma ralaxada com que você guia suas verdades, mais parece uma mãe desajeitada querendo levar os filhos pra dentro de casa, quando o que eles mais querem é correr pelas calçadas em busca de um norte. No quarto de seus sentimentos, você encaixota os fatos e os coloca na prateleira que te dá vontade. O que sobra, fica pra fora em uma garagem vazia. O que você não sabe é que as paredes são fracas e a casa está sob risco.
Você sai e corre para a cidade ostentando consciência e roupas limpas. Mal sabem as traças que seu mais delicioso alimento está no coração velho e empoeirado, usado e sujo e que as roupas são apenas um aperitivo antes do prato principal. E seus amantes acham que têm grande coisa.
A perversão correndo nas veias era o sentindo em todos os momentos em que ouvia as suas palavras. O erro proposital, o engano em doses excitantes, o corpo embalsamado em emoção. Tudo se completava até o ciclo ser rompido pela sua ignomínia, e a verdade do pecado se foi com o seu erro, que já não se pode chamar “pecado”, pois as desventuras do que por você foi maldito não carregam em si nada de bom.
O que sobrou foram os textos. Palavras dos retranqueiros da vida, que já as têm de sobra na boca para advogar causas francas, mas nem sempre com sentido – não se fazem maus, pois as causas não vêm com explicação – mas nem tudo se faz com palavras. Palavras as vezes, ou quase sempre, são só palavras.
C o n s t i p a ç ã o
Dia de ficar gripada é assim, de ficar gripada mesmo. Não é dia arrumar o guarda-roupa, não é dia de pensar na sua existência, não se pode trabalhar e ler só mal e porcamente. Dia de ficar gripada é pra ficar deitada, é pra tomar remédio, é pra morrer de tédio e andar pela casa de meia e sem sutiã ouvindo Billie Holiday até dormir. A vasta programação desse dia corre da seguinte forma: tomar remédio tal a tal hora, tomar xarope tal a tal hora, tomar banho, talvez – vem sempre aquele papo que lavar o cabelo faz mal, sair faz mal, tudo faz mal. A verdade é que depois de todas as prescrições maternas você quer mesmo é morrer. Comer frutas e verduras coloridas altera seu estado, mas o dia continua cinza, não adianta nada.
Normalmente não escrevo, aliás, escrevo sim sobre meus dias, mas não com temas tão corriqueiros. O fato é que não tem sobrado muito espaço na minha alma pra poesia ou prosa. Talvez ela esteja gripada também. Ou constipada – falar da alma exige sempre um vocabulário mais apurado, afinal, quando vamos falar de sentimentos e principalmente de sofrimento é necessário sempre elevar o linguajar. Como se aquilo dignificasse e exaltasse o que está sendo exposto. Sabe, os nomes de remédios também são assim: Probenxil, Tegretol, Sinvastatina, Lexapro e outros nomes que só o farmacêutico lembra. As palavras diferentes estão sempre querendo detectar, expôr e curar os sentimentos. Assim como os remédio fazem com doenças.
É realmente, dia de se engripar é assim. Não se faz nada de útil. Comparar poesia com remédios é até uma boa idéia, mas eu não terei sucesso nisso. Não hoje que estou gripada e constipada (??). A única coisa que sei é bem simples: Pra dor no corpo usa-se dipirona, já pra dor de cotovelo….
Aí ta vendo!?
