SERAINE

A Seraine faz músicas, fotos, estuda jornalismo e insiste nessa história de blog.

Um sonho

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Deito no leito confortável para aliviar a dor nas costas, estas que já carregaram tantas coisas – mortos de guerras, doentes da vida, gente preguiçosa. Do outro lado de mim, tampo os olhos vermelhos. Vermelhos de choro, de cansaço, de vergonha. Insuportável falar de vergonha. É como sentí-la a cada instante – lembrar-se da derrota e não ter como dar outro nome a esse sentimento que potencializa a dor.

Misturando as palavras em versos, em prosa, quero dizer ao mundo que tenho vergonha: do desconsolo, da inconstância, da preguiça, dos homens, da cruz jogada às traças por minha essência fétida(embora apareça na ressonância gritenta da minha alma em momentos de assombração)

O leito ainda é confortável, mas a vida é fria e eu não posso me aquecer.

O mundo gira em torno de si mesmo em sentidos cósmicos, práticos e subjetivos; os raios do sol queimam os habitantes deste lar inconstante; as matas também não resistem e incendeiam com o calor da irresponsabilidade humana; os carros passam como tudo na vida; as crianças crescem e morrem.

O que pode me aquecer é a esperença.

Palavra conhecida, fácil, acessível. Basta um pensamento, um ato, e ela vem arrebatando o espírito cansado. E no leito confortável, mas frio, a temperatura muda, a vergonha dá trégua, os homens se calam, mesmo quando não estão falando.
O mundo não gira em torno de sí, antes é um pequeno astro no universo.

Mas eu ainda estou nele – este é problema – eu ainda não saí dele.

Escrito por Gabrielle Seraine

Janeiro 4, 2006 às 4:28 pm

Publicado em Pretexto

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