SERAINE

A Seraine faz músicas, fotos, estuda jornalismo e insiste nessa história de blog.

Archive for Janeiro 2006

Intermitências intermináveis

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Intermitentes, as razões são intermitentes. Não se pode pensar no que se passa, afinal o passado fede, mas o que fazer quando o cheiro está impregnado nas narinas – e como asco repulsivo de odores infindáveis – nojento. Melhor tentar disfarçar tudo com perfumes novos, nobres e caros, mas esses sim, passam.
Intermitentes. Qualquer dia desses, jogo tudo pelo alto, inclusive a mim, mas para falar a verdade, não vou não. Sempre haverá alguém para me impedir e o risco de não ter faz com que eu não tente.
Querem saber o que é intermitente? Para o que é só constante não existe e oficialmente também não.Não caia nos intermitentes pois são intermináveis, como as razões desses espaços não contínuos que os intermitentes deixam. Quase chegam lá. Quase amam. Quase tudo. Quase que eu não escapei.
As crianças começam a brincar de bonecas, montam suas histórias fantásticas, escolhem os apetrechos, as roupinhas e montam ou destroem famílias, mas só por uma tarde.
Assim se faz com tudo e todos, a todo o momento, desmontando e montando, destruindo e destruindo, num presente descontinuado, atordoado, intermitente, interminável, quase sempre não palpável, insuportável, mas só por uma tarde.
Amanhã montamos os brinquedos, pegamos o ontem do saco e vestimos as bonecas que, inanimadas, não dizem uma palavra sequer quanto a serem intermitentes.

Escrito por Gabrielle Seraine

Janeiro 27, 2006 em 12:48 am

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Da janela

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Amostra de felicidade.

À vista de costas ainda há vista da cidade. De onde os suicídas se jogam a poesia brota para dar algum sentido a vida.
Ahh se esse papel voar!!! Eu não transmutarei em símbolos os sentimentos tão raros nesta janela(o papel está nela).
Ao som de música realista, estou sã e branda como nunca, e calma e fresca e como quase que sem aceitar, feliz. Vai passar eu sei, mas veio e isso é o que importa.
Não quero sair pela porta. Quero a janela. Nela estou feliz. Não quero cair nem sair.
Quero ficar assim…vendo a cidade que amo, mas que foi palco das minhas mais terríveis dores – e os espetáculos continuam, pelo menos até o presente momento em que estou aqui, na janela, sentindo o mundo como se não fosse lúdico.
O importante é o que foi embora pela janela sem eu ter que encará-la.

Escrito por Gabrielle Seraine

Janeiro 6, 2006 em 10:10 pm

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Um sonho

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Deito no leito confortável para aliviar a dor nas costas, estas que já carregaram tantas coisas – mortos de guerras, doentes da vida, gente preguiçosa. Do outro lado de mim, tampo os olhos vermelhos. Vermelhos de choro, de cansaço, de vergonha. Insuportável falar de vergonha. É como sentí-la a cada instante – lembrar-se da derrota e não ter como dar outro nome a esse sentimento que potencializa a dor.

Misturando as palavras em versos, em prosa, quero dizer ao mundo que tenho vergonha: do desconsolo, da inconstância, da preguiça, dos homens, da cruz jogada às traças por minha essência fétida(embora apareça na ressonância gritenta da minha alma em momentos de assombração)

O leito ainda é confortável, mas a vida é fria e eu não posso me aquecer.

O mundo gira em torno de si mesmo em sentidos cósmicos, práticos e subjetivos; os raios do sol queimam os habitantes deste lar inconstante; as matas também não resistem e incendeiam com o calor da irresponsabilidade humana; os carros passam como tudo na vida; as crianças crescem e morrem.

O que pode me aquecer é a esperença.

Palavra conhecida, fácil, acessível. Basta um pensamento, um ato, e ela vem arrebatando o espírito cansado. E no leito confortável, mas frio, a temperatura muda, a vergonha dá trégua, os homens se calam, mesmo quando não estão falando.
O mundo não gira em torno de sí, antes é um pequeno astro no universo.

Mas eu ainda estou nele – este é problema – eu ainda não saí dele.

Escrito por Gabrielle Seraine

Janeiro 4, 2006 em 4:28 pm

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